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Classe média, Paul McCartney e por que somos todos indies (aunque no lo creas)

dezembro 6, 2010

Depois de Portugal, o resto do mundo descobriu o Brasil. Os holofotes do primeiro mundo foram direcionados para nossa terra e muita gente agora tem a oportunidade de saber que temos mais coisas a oferecer ao planeta do que teledramaturgia, pancadão e usuários de twitter.

E nossa capital não é Buenos Aires, apesar da proximidade

Tudo é uma maravilha, enfim. E, óbvio, mantemos a mística verde-amarela de acreditar que somos o país do futuro e que ninguém vai nos segurar, como profetizou Renato Russo numa das músicas da Legião Urbana que não convém recordar o nome agora.

Desponta aí a primeira desgracia. Fazer com que o ciudadano latino sinta-se poderoso tem o mesmo impacto mundial que fornecer material atômico a países que possuem tecnologia nuclear avançada, segura e pacífica, como Etiópia e Congo.

Aqui no meu barrio, por exemplo, é comum nos finais de semana os vizinhos disputarem quem tem o carro mais novo e tornar isso público. O cara vai lá e começa a lavar a caranga que comprou recentemente (0 de entrada + 72 de R$668) gastando água e ouvindo Creedence no último volume.

Súbito, o vizinho ao lado tira seu fusquinha da garagem e começa a fazer o mesmo porque, apesar de velho, seu fusca não é um cualquiera por conta das rodas, do sistema de som e vídeo recém-instalado. O cara tem que se afirmar. E o apresenta pela rua tal qual um pai apresenta sua filha debutante aos presentes no baile.

Você vai pensando que o negócio é inofensivo até o ponto em que a coisa toda se transforma numa guerra entre as famílias: os filhos disputam quem tem menos camisetas piratas de times de futebol no guarda-roupas; as meninas, por sua vez, disputam quem é a mais santa ou quem é mais fã do Fiuk; as esposas costumam anunciar os produtos comprados quando encosta o caminhão das Casas Bahia na residência.

"Benheeê, chegou o HOME TEACHER!"

Sobra até para os cachorros. Os daqui da rua disputam quem late mais alto ou quem caga mais no quintal, à sua maneira.

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Outro fator grave é um certo grau de erudição que baixa no camarada quando ele percebe que tem uns zeros no salário a mais que um outro allegado. Chega a ser engraçado quando esta espécie, que até pouco tempo possuia um vocabulário limitado, vem conversar com você sobre Beethoven, questão palestina e bullying.

Fico imaginando o cara suando frio na cama pensando em como bancar o culto no churrasco de sexta-feira. Afinal, ele não é mais um simples Operador de Call Center, ele agora foi alçado à nobre função de Operador de Call Center II. Imaginem, dentro de uns anos, quando ele virar um célebre Supervisor? A Cohab não vai mais servir pra ele, seguro.

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O Brasil é o país do futuro e os gringos estão pagando pau pra gente porque o Obama falou que o Lula é o cara e porque viramos credores do FMI e o Pré-Sal vai manter as coisas assim durante muito tempo.

Vai ter Copa, Olimpíadas e figurões da música que antes fingiam que não existia vida bajo la línea del Ecuador agora aportam em nossas terras para mega-apresentações. Assim caímos no conto da carochinha de novo, el cuento del tío, pensando que os caras se arrependeram do tempo em que nos evitaram por medo de cobras e lagartos no palco.

E nós vamos lá e pagamos 200, 300, 500 reais pra ver a banda da vida, retribuir o carinho do astro que veio visitar nosso país. Optamos por comer cachorro quente no almoço e na janta durante um mês inteiro só para poder dizer no trabalho que vamos ao show de artistas como Lou Reed e não em festivais de música sertaneja ou bailes de forró. O pessoal vai morrer de inveja da tua tatuagem feita a partir de um autógrafo do Paul McCartney.

Grande coisa. A minha é o autógrafo do Tiririca

2010 foi o ano em que deixamos de ser índios para nos tornarmos indies. Qualquer coisa que seja associada ao nosso querido país soa como algo sofisticado, descolado e independente de padrões de sociedade estabelecidos. Somos a alternativa à mediocridade que tomou conta do Velho Mundo. Entretanto, é melhor todos nós aproveitarmos a suruba que se avizinha a oportunidade de descolar um Green Card neste momento de alto astral com as nações amigas. Comece a pensar como. Vai que…né? A maré de sorte pode durar pouco.

"Hummm...acho que vai rolar"

Acabaram com o sexo (na moita)

novembro 23, 2009

É uma grande desgracia não poder gozar. Não gozar da liberade, do direito de ir e vir. De certa forma, andam banindo os prazeres da vida latina. O consumo de cerveja e cigarro está cada vez mais cerceado. Os bingos, fechados. Música alta só até às 22h. A farra e a falta de limites sempre foram os pilares que sustentam a nossa sociedade desde eras mitológicas. Onde foi parar a boemia do saudoso Nelson Gonçalves? As cidades do prazer descritas por Nelson Rodrigues?

Por sorte, o sexo ainda está por aí. Mas por enquanto. Existem indícios de que ele se nos está escapuliendo por entre os dedos. A restrição velada parcial de alguns prostíbulos pelos governos fez com que eles ficassem concentrados em regiões específicas, criando zonas de zonas. Sacou?

Por serem poucas para atender a demanda, a lei da oferta e procura se encarregou de aumentar tudo: o lucro, a propina e o grau de instrução dos funcionários do santo meretrício, já que muitos abandonaram a escuridão da ignorância e partiram para a luz do ensino superior.

Ou seja, quem quiser agora desfrutar do serviço tem que pagar mucha plata porque o mercado da sacanagem está altamente qualificado. Não me surprenderia num futuro próximo, por exemplo, caminhar pela rua Augusta e ver certificados ISO 9000 pendurados nas recepções dos puteiros. Ou, sei lá, a criação de um SAC para atender ao cliente que se sentiu lesado:

“Nova Babilônia, boa tarde”
“Safardanas! Paguei por duas horas e me tiraram do quarto antes disso”
“Senhor, saiba que esta ligação está sendo gravada…”
“Vagabunda!”
“…e ofensas podem ser usadas contra o senhor…”
“Lambisgoia!”
“…num futuro processo judicial.”
“Pro diabo que te carregue!”

Como somos malandros, velhacos e dribladores de adversidades, arrumamos uma namoradinha aqui e ali para poder baixar os níveis da libido e não depender mais das casas de massagem. Tudo vai bem até acabar a grana reservada no orçamento para o motel e começar um verdadeiro efeito cascata de desgracias.

A casa dos pais é sempre uma boa carta na manga, mas aí a intimidade do lar sucita um relacionamento duradouro na mente feminina. O interior de um carro seria uma boa não fosse a estatística de que nós, latinos, temos na garagem geralmente uma caranga sem gasolina velha e de pequeno porte.

Aí passam pela cabeça lugares como o Parque do Estado, Piqueri, Jardim Botânico, Bric da Redenção, Pelourinho, alguna plaza arborizada de San Telmo ou aquela ruazinha mais escura do distante oitavo anillo de La Paz. “Mas é claro!”, pensa a romântica e incauta mente sudaca.

Transar à luz da lua, num parque, talvez próximo a uma linha de trem, sem ninguém por perto (ou com a possibilidade de ser visto) são fatores que excitam homens e mulheres aqui da Sudamerica.

Entretanto, eu falei que estão cerceando os prazeres da vida latina. Nem trepar nos espaços públicos podemos mais, como noticiou a Folha Online aqui. Uma verdadeira desgracia para a Saúde Pública e o bem-estar social.